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José Cardoso
O Manuel Bandeira falava sobre uma aula no Rio de Janeiro quando, como pernambucano, respondeu na ponta da língua a pergunta sobre o rio que corta Recife: "Capibaribe". Risadinhas na sala com o sotaque e a correção do professor: "Capiberibe". Mais tarde colocou esse evento no poema Evocação do Recife: "...Capiberibe, Capibaribe"
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Marcos Benassi
Óia, Hélio, tamos afinados: saí pra viajar no fim do ano passado com "preconceito linguístico" do Marcos Bagno, e "a invisibilidade da desigualdade brasileira", organizado pelo Jessé Souza, na mala. Tratam rigorosamente dessa coisa que é a linguagem como marcador de posição social, diferenciador de origens e alavanca fundamental do acolhimento ou rechaço nas relações. Tô acostumadíssimo a ver como essas diferenças definem, de imediato, a forma como se é tratado nesse mundão de Zeus.
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Bruno Didoné de Oliveira
Gostei do "piracicabento"! Hahahaha Abraço, Marcos!!
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Marcos Benassi
Ôôô, Bruno, mas cê pescou o essencial: meus comentários são mêmo caipiroliterários, repletos de linguagem "minorizada" e meu próprio esculhambol, linguajar de criação feita com meu faro piracicabento. E vamo que vamo! Hahahahah!
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Bruno Didoné de Oliveira
Caro Marcos, li na sua resposta ao comentário de outro leitor que você é piracicabano. Acompanho, leio e aprecio todos os seus comentários, pois tem um quê de literatura neles. Também sou caipiracicabano e é legal saber que tem um conterrâneo aqui nesse espaço!!
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Vanderlei Vazelesk Ribeiro
Quando cheguei ao Rio e fui para o internamento no Instituto Benjamin Constant, uma das muitas razões para sofrer bullying era meio sotaque caipira, primo do Mazzaropi. Na medida do possível, fiz questão de conservá-lo.
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Marcos Benassi
Ah, compadre, eu perdi minha caipirice natural da fala de um piracicabano porque cheguei cedo a Campinas. Só fui notar, muito depois, que isso faria a diferença no tratamento que recebi, mas já era passado. Isso posto, mantenho na manga não só o registro e a fluência no meu caipirês original, como também no Sul-mineirês de meu pai, perfeitamente disponíveis para emprego. Curiosamente, faço-o mais nos papos "cosmopolitas", como aqui na folha, de modo demarcar absurdos ou raciocínios incomuns.
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ANSELMO VITAL OLIVEIRA
Já me surpreendi inibido, várias vezes, em São Paulo e no Rio de Janeiro no momento de falar livremente com as pessoas. Como se me auto defendendo de expressões como olha o paraíba, aqui mais um baiano Um horror!
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Marcos Benassi
É triste, tristíssimo, que sotaques maravilhosos do nordeste sejam tidos com desprezo por quem, continuamente, busca emular e incorporar anglicismos, como se nossa língua não fosse suficientemente bela e autônoma. Eu tenho particular amor pelo sotaque e linguajar de Pernambuco, mesmo sem nunca ter visitado o estado. E, especificamente dentro do particular, a fala dos velhos, que traz a marca do tempo no linguajar.
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José Oliveira
Falo 4 línguas estrangeiras e há muito tempo notei que, infelizmente, e preconceito linguístico não é devidamente combatido. Li todos os comentários anteriores e temos provas disso aqui mesmo. Dizer que alguém tem "sotaque enjoado" ou que um grupo social tem tem uma maneira de falar "inteligível" prova isso. Recomendo algo difícil a todos: confrotem seus preconceito. Há alguns anos eu achava o espanhol Madrid estranho, solução: passei a ouvir podcasts madrilenhos, hoje penso que é algo normal.
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José Oliveira
* confrontem
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Celso Neri Junior
Sou carioca e estou radicado em São Paulo há 20 anos. Logo quando mudei pra cá ouvi uma paulistana dizendo que paulistas não têm sotaque. Achei aquilo engraçado, pois como pode o povo de um local determinado não ter sotaque aos olhos de todos os demais povos? Há, contudo, essa percepção em todas as regiões, vez que o outro é que sempre é o diferente.
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Marcos Benassi
É muito curioso, prezado Celso, como o "carioquês" foi definido como o "sotaque oficial" do país, mormente por conta, acredito, das novelas da Globo. Assemelha-se muito ao português falado na região de baixo de Portugal, Lisboa e Algarve, as regiões ricas do país. Passando-se um tempo por lá, percebe-se que os sotaques do norte Tuga ou das aldeolas dos "rincões", regiões mais humildes, são desprezados como "grosseiros", ainda que saborosíssimos, estupendos. Como, cá, o maravilhoso Pernambuquês.
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Gilson de Oliviera Mendes
A linguística em geral já refletiu sobre o preconceito linguístico desde há muito tempo, em particular a sociolinguística, inclusive aqui no Brasil cujo "Preconceito Linguístico", de Marcos Bagno é um clássico, mas o assunto tem que vir em inglês pra certas pessoas levarem a sério. Aff...
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Marcos Benassi
Ah, Gilson, tô com o Bagno na mala, relendo esse livrinho delicioso que um colega de Ágora, o Ênio, me recomendou anos atrás. É uma delícia ler uma reflexão super qualificada, conquanto despretensiosa, sobre aquilo que a gente sente e observa. É recomendação preciosa, facilmente encontrável nos sebos representados pelo Estante Virtual. Um primor.
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CARLOS ALEXANDRE PERGER
Das interações sociais podemos observar que não só a linguagem é instrumento de poder, mas as relações do hibridismo cultural que a partir das diferenças geram estereótipos legitimando os processos de colonização, hierárquicos por sua vez.
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Marcos Benassi
Ahhhh, meu chapa, preciosidades como a Dona Irmã estão se finando, como é da vida. Se tiver oportunidade de espiar no Globoplay a última reportagem do Globo Rural, sempre lindo, hoje foi primoroso. Falou-se das linguagens, dos cantos de trabalho, dos velhos que guardam as tradições. De uma beleza que só mesmo aquela equipe, uma das melhores da enormidade corporativa da Globo, é capaz. Vale a pena mêmo! Grande abraço, distante e querido!
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CARLOS ALEXANDRE PERGER
Que presente, Marcos. Obrigado. É especial por olhar pra dentro do ser humano, no cuidado com a ancestralidade comum a todos. Hoje, especialmente, tivemos geada frio em pleno janeiro e sabemos que as altas temperaturas trazem problemas de saúde aos idosos. São três mil habitantes que preservam as memórias dessa cultura. Das nossas amigas, Irma tem 86 e faz bordados russos, a última a fazer essa técnica. Simplesmente lindo.
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Marcos Benassi
E tudo isso, caríssimo, é de uma beleza imensa: pode significar sobrevivência cultural e espiritual de uma comunidade, ensejar resistência à degradação sóciocultural, pode ser interessantíssimo. E, conversivelmente, ser instrumento de exclusão, de um espírito refratário ao diferente, ao outro etc. É sutil, mas quem tem olhos pra ver, diferencia.
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CARLOS ALEXANDRE PERGER
Dialetos ainda existem, Marcos. Por um lado é a expressão da cultura que os antigos mantém e ensinam às novas gerações. Com a gente, "fala em brasileiro" quando temos que conversar com pessoas de idade. Interessante que os protestantes ainda celebram o culto em alemão aqui,e nos lugares mais afastados mantém-se a arquitetura enxaimel que ao entrar você sente a presença da cultura através da culinária ou pelas estações de rádio que transmitem programação em alemão.
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Marcos Benassi
Noooofa, compadre, e você aí na serras do Sul, lugar de "purismos étnicos", de linguajar também bastante marcado e específico, deve ver isso a torto, à direito e à esquerdo. Talvez mesmo entre "iguais", diferenciados por serem roceiros ou metropolitanos.
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Felipe Braga
Eu venho do interior próximo de São Paulo. Quando comecei a estudar e depois fui trabalhar na capital percebi: pessoas de alta renda em São Paulo falam como a Ameinda (aquele sotaque enjoado, vibrando R e meio italiano), já o pessoal da quebrada misturava uns sons do sertão nordestino, só que os crias misturavam isso com gírias que doem de ouvir. Acho que por essa desigualdade essa cidade foi tão chocante para mim!
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Marcos Benassi
Ah, isso é sociologia prática de primeira, meu caro: a visão insider das diferenças, entre cidade e campo, entre quebrada e centro, entre gente estudada e outras não. Também sempre convivi com isso, com a "vantagem" de ter tido a estruturação linguística com base naquela de maior valor social. Mas, como não sou bbbeesta, sempre adorei o diferente e o desviante da norma, tive sorte adicional: pude ter o deleite de ter comigo algumas das nossas maravilhosas variações. E tb criações da quebrada.
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Vanderlei Vazelesk Ribeiro
Como diz Caetano: nós, narcizos achamos feio tudo que não é espelho. O X daqui do Rio, todos primos da Xuxa eu acho feio.
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Lorenzo Frigerio
Não estou falando do Brasil, mas negros no Reino Unido e Estados Unidos de uma maneira geral nem sempre são inteligíveis. Não interessa que sejam nativos, é como se fossem estrangeiros. Em outras palavras, de um outro grupo social.
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Hélio Barbosa de MT
Muitos dialetos são assim mesmo, de propósito, para não ser entendidos por quem não é do grupo. Uma forma de defesa, ou de identidade.
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